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Quarentena e o tédio. Tédio?

Atualizado: Jun 15

Eai, muita correria? Nem tanto assim. Né? Obrigados a estar em casa, são muitas e muitos os que também foram forçados a desacelerar. Vocês também perceberam que não é tão ruim assim? Aqui iremos juntos pensar não no vírus, mas direcionar nosso foco a outra dimensão da atual conjuntura, a de estar em casa. Irei expor uma simples constatação, muito própria, por isso trata-se um texto livre, sem formatação e talvez por isso cause em você estranhamento e/ou identificação.


Voltando ao assunto. Notem que no caminhar da contemporaneidade houve certa romantização da vida ocupada e dinâmica. Somos a sociedade da performance, eficiência, flexibilidade e capacidade de tudo fazer (ao mesmo tempo). Impulsionados por um ideal liberal de “ser o melhor de nós mesmos” a cada dia, mergulhamos de cabeça nessa dinâmica, não mais baseados na lógica moderna a qual colocava o Estado como norteador do ser, passamos a nos impor as próprias “metas”. Libertador, não? Afinal nós que nos colocamos a prova. Não. Pelo menos para mim.


Há ainda uma onda de ultra positividade que nos cobra um bem-estar praticamente coercitivo. Temos que fazer exercícios físicos, comer healthy foods, sermos atraentes, bem sucedidos profissionalmente, empreender, amar o trabalho, espiritualizados e mentalmente equilibrados, mas não um de cada vez, ao mesmo tempo e eternamente. Opa! Esqueci. Fazer yoga também. Cansativo. Nada libertador, ser forçado a ir tão bem e tornar tudo tão bom ao mesmo tempo. É impossível. Talvez seja isso que esgote, causando o tão atual e frequente burn out ou frustre, deprimindo, findando em depressão. Tornamo-nos, na verdade, a “Sociedade Do Cansaço” de Byung-chul Han. Inclusive, vale a leitura.


Daí ocorre tal pandemia. Temos que ficar em casa. Nem tudo nos é possível. Não cabe só a nós mesmos nos obrigar a dar conta de tudo, nos manter motivados, positivos e frenéticos para assim sermos eficientes. E então: estamos em casa. Tédio. Tédio? Agora estamos com tempo. Tempo de olhar o outro, de olhar para nós mesmos, nossos reais desejos. Parar. Não fazer nada. Reaprender a deleitar no ócio. Lembram-se do ócio criativo? Talvez estejamos redescobrindo. É no descanso, na falta de pressa que a criatividade emerge. Retornaremos as boas leituras, aos filmes, estudos despretensiosos, atividades cognitivas que vão além da rotina de trabalho e da perspectiva de mercado. Escrevendo esse texto, não tenho pretensões em tornar isso uma realidade a quem lê, mas sim a mim, exemplo real de tal paradoxo do bem-estar que percebeu-se assim há um tempo e tem tentado deslocar-se deste movimento.


E depois, quando tudo isso passar – e passará – perceberemos que nem tudo nos é possível, podemos sim diminuir o ritmo, a pressa, a obrigatoriedade de melhorar nossa performance. Preservar nosso descanso, a intimidade e o isolamento não compulsório em casa, ficar sem fazer nada mesmo de vez em quando sem a freneticidade da busca daquele bem estar paradoxal de cada dia. É importante que a gente busque a melhoria de desempenho, mas não coercitivamente. Entretanto, sejamos positivos quanto a nossa sociedade. Afinal, jamais fomos tão materialistas e falamos tanto em espiritualidade; trabalhamos hoje praticamente a todo momento, mas nunca se praticou tanto yoga e meditação; consumimos como nunca e os diálogos sobre a consciência dos efeitos do consumo ao planeta estão a todo vapor. Continuemos nossa caminhada, o futuro será mais leve. Mas, não se cobre ser tão leve.


Lucas Mooneyhan é comerciante, formado em administração e pós-graduado em gestão de processos, pela UFRN


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